João Batista Silva
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Os Cruzeiros

     São duas linhas características das ricas histórias deixadas através dos cruzeiros em nossa região do Centro Oeste Mineiro.
      1as Características – Aproximadamente no ano de 1.723, muitos cruzeiros foram colocados na nossa região, normalmente em linha reta, como se fosse uma rede de energia elétrica.
     Estes cruzeiros são finos, de nove a onze metros de altura, contando a parte interna na terra, que normalmente são dois metros. Foram colocados em pontos estratégicos: Colinas, montanhas ou vertentes. Distantes de nascentes de água. Nos braços foram gravadas as letras “X.P.T.O” que significam a abreviatura medieval de Cristo, o Supremo Poderoso, de todos que acreditam em Deus.
     Devido à grande altura e à madeira verde, muitos empenavam e retorciam. Temos como exemplo disso, o grande cruzeiro inclinado no Campo Redondo, do município de Bom Despacho – MG, que continha as gravações em algarismos romanos: XI - VI – MDCCXXIII (11/06/1723) e outras iniciais.
     Temos notícias de cruzeiros com essas características à margem da rodovia que liga a BR 262 a Divinópolis passando por São Gonçalo do Pará, Conceição do Pará, Campo Redondo, Quilombo, Bela Vista, Ibitira, Garça, município de Bom Despacho e muitos outros em estudo, ou que desapareceram.
     Foram afixados dois metros e aos lados do cruzeiro existiam dois coletores (cofres) de aroeira vermelha, usados como pilão de coletas em forma de uma bandeja.
     2as Características – Aproximadamente no ano de 1878, foram colocados em nossa região grande número de cruzeiros, de sete a nove metros, madeiras extremamente pesadas, com espessuras (bitolas) bem superiores aos primeiros cruzeiros. Não existem casos de empenos, foram afixados próximos a córregos, não seguem linha reta.
     No sentido horizontal, nos braços, foram colocados o Martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que são: A placa (I.N.R.I - Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum, do latim clássico, que significa: Jesus Nazareno Rei dos Judeus), Coroa, martelo, chibata, pregos, etc. No sentido vertical: Escada, abaixo dos braços e numerais com algumas iniciais em algarismos romanos.
      Como exemplo de cruzeiro da segunda característica, temos o Cruzeiro do Engenho do Ribeiro, município de Bom Despacho – MG, com as gravações: 03/05/1878. Outros cruzeiros que se têm notícia: Próximo à COPASA – Bom Despacho, Rua Cruz do Monte, Bairro São Vicente, Vilaça, Fazenda da Sede, próximo ao Rio Lambari e muitos outros que ainda existem ou que desapareceram com o passar do tempo. Na Rua Clodoaldo de Oliveira, antiga Cruz das Dores, na cidade de Bom Despacho, um cruzeiro foi arrancado, cortado e queimado. No local foi construído uma casa, a mais antiga da Vila Boêmia.
     Segundo depoimentos, o local está logo abaixo do posto de saúde, onde muita turbulência foi confirmada com noticias de homicídios. Mesmo ficando o local conhecido como Cruz das Dores, o que já existiu ali foi um cruzeiro muito bonito, que recebeu das mãos do homem um fim indesejado para a história de nossa região. Centenas de outros cruzeiros foram queimados, arrancados, picados e colocados nas cercas de arames farpados, nas pontes de córregos e riachos, nos currais. Outros tiveram mais objetivo, foram transformados em centenas de crucifixos que provavelmente renderam centenas de relíquias e orações pelas mãos artistas que os transformaram. Não importa como ou quando se deram as transformações, até os que foram queimados, se transformaram em cinzas! Rua Cruz das Dores, local em que hoje chamamos de Rua Clodoaldo de Oliveira, descrita no texto, foi um local em que várias pessoas jovens e cidadãos honrados usavam para encontrar suas amásias em épocas em que a boemia era o mal que mais atormentava as famílias.
     Um casal da região de Onça do Pitangui mudou para Bom Despacho, um senhor de aproximadamente quarenta anos e sua esposa Rosa. Ele era funcionário da Rede Ferroviária Federal e havia sido transferido para Bom Despacho. O casal tinha um filho jovem ainda, noivo na cidade de Pitangui e chegando a Bom Despacho, encantou com uma jovem mulher, que viera da cidade de Biquinha/MG, residindo na pensão da Rua Cruz das Dores, sendo ela, Mauristela Flores. O local mais cobiçado pelos boêmios da ocasião. O jovem com dezenove anos voltou a Pitangui, terminou o noivado, deixou o emprego que havia conquistado em uma panificadora e passou a dedicar o seu tempo, exclusivamente à boemia da Rua Cruz das Dores.
     Em um determinado dia, envolveu-se com um desconhecido por causa de Mauristela Flores e foi jurado de morte. Sua mãe e seu pai ficaram sabendo da notícia e como eram pessoas de fé em Deus, procuraram agir com cautela e rapidez. Embarcaram na “maria fumaça” (transporte ferroviário da ocasião) e foram até a Estação mais próxima de Pará de Minas/MG para encontrar com o Pe. Libério Rodrigues Moreira, que os abençoou, dando também a bênção ao filho Maurício Bernardes, apesar de ausente (fato registrado no final do mês de Maio em 1.966). Ouviram as recomendações de Pe. Libério e retornaram a Bom Despacho/MG. Um determinado dia, Maurício, demonstrando-se aborrecido, barbas sem aparar, roupas sujas, usando bebidas alcoólicas, disse à mãe Rosa que estava saindo para encontrar sua predileta; sua mãe em orações constante, o pai estava trabalhando, meios de comunicação não existiam. Rosa foi andando rápido, não perdeu tempo, perguntava um aqui, outro ali e foi... Começou a ouvir músicas diferentes, a farra estava esquentando, os rapazes que haviam prometido vingança a seu filho, já estavam presentes aguardando apenas sua chegada. Alguns cavalos amarrados por perto, estacaram e arrebentaram os cabos dos cabrestos, quando alguém soltou “vários foguetes de calibre assustador”; estampidos, balançando janelas e um cerca cavalo daqui, outro cerca de lá e outros, correndo, escondendo, quando a Senhora Rosa vê saindo de um determinado quarto, seu filho Maurício e Mauristela Flores, tentando verificar o que estava acontecendo.
     Rosa abraçou seu filho, enrolou sua cabeça com sua blusa, colocou-o à sua frente, passou por todos como se fossem duas mulheres. Em casa, procurou barbear o filho, cortar seus cabelos, pentear, vestir roupas limpas e ao cair da tarde, chegando o pai do serviço, tudo estava resolvido. Passando três semanas, Maurício retornou ao noivado, casou-se e tudo se normalizou.
     Seus pais (in memoriam), a família de Maurício é extremamente agradecida a Deus e ao Padre Libério Rodrigues Moreira.
     Muitas pessoas usam as ricas habilidades de suas mãos para complementar os sonhos de salvar vidas, pintar lindos quadros, aprender música nos mais diversos instrumentos. Outros se exercitam lavando roupas, descobrindo vacinas e medicamentos, escrevendo histórias. Outros, que não se acham em meio a tantas formas simpáticas de se tornarem úteis, procurando desmanchar, destruir algo que encontraram pronto, julgando-se proprietários absolutos daquilo que é do povo, veio do povo, e precisa existir para a história de um povo; resolvem tomar decisões sem consultar a opinião pública, ou consultam apenas um pequeno grupo considerado privilegiado nos interesses das arrogâncias. Reformas precisam ser feitas, resguardando a estética através de mapeamentos e outros cuidados. Isso não se pode negar.
     Os cruzeiros, cruzes e crucifixos do Centro Oeste Mineiro, são basicamente símbolos enriquecedores dos fortes laços históricos de nossa região, de nossos antepassados, de um povo que se perpetua na mais rica fonte de histórias que não se apagarão jamais. Os cruzeiros, em duas ou mais linhas de estéticas e épocas diferentes, muitos com vivas marcas de respaldos, outros, suas características, foram vítimas do desgaste provocado através de dezenas de anos expostos ao tempo, chuva, sol, fogo, abandono e até mesmo provocações ociosas do bicho homem, que no mais absoluto limite de sua capacidade de envolver-se de forma brutal contra suas histórias, suas origens, arranca e corta em pedaços ricas fontes de histórias e os transforma em objetos singulares.
     As cruzes são afixadas com as frentes dos braços para o sentido frontal do cruzeiro mais próximo. Entende-se que o cruzeiro seria a matriz e as cruzes suas comunidades.
     Em Moema/MG, a reforma de um Cruzeiro que foi arrancado e estendido ao solo por um bom tempo, exposto ao tempo, deixou de ser polêmica e salvou ricas histórias de um passado que se faz presente em meio às relíquias existentes e nas formações das vilas que transformavam em cidades. Seus habitantes são cristãos, espíritas, católicos, evangélicos, de seitas desconhecidas, ateus e outras. Mas são humanos, pensadores e trabalhadores.
     Outros cruzeiros situados em vilas, distritos, hoje cidades, são mantidos fisicamente ou através das histórias em Carmo do Cajurú/MG, Martinho Campos/MG, Conceição do Pará/MG, Pirulito (município de Santo Antônio do Monte/MG), São Gonçalo do Pará/MG, Campinho (município de Luz/MG), Garça (município de Bom Despacho/MG) - este, também pertencia à primeira característica e não se sabe exatamente o que aconteceu, ficando a história de sua existência. Um segundo cruzeiro (réplica) foi colocado nas proximidades do local. Foi um trabalho em parceria dos padres Sebastião e padre Paulo Dias Barbosa. João Batista Silva foi até a Companhia Industrial Aliança Bomdespachense (CIAB), onde recebeu do presidente em exercício, José Fúlvio Cardoso, a doação de dois postes usados de aroeira vermelha, para a comunidade da Garça. O ofício foi assinado pelo padre Sebastião. O escultor do cruzeiro foi um carpinteiro das proximidades da Igreja Matriz de São Vicente, no Bairro São Vicente, da cidade de Bom Despacho - e centenas de outros cruzeiros.      Normalmente, as cruzes são afixadas nos locais em que faleceu alguém nas proximidades de estradas rurais, nas fazendas e sítios. Quanto aos cruzeiros, usavam-nos nas proximidades de cemitérios, em zonas rurais, distante de cidades e vilas.
     Na mesma ocasião em que Pe. Libério empenhou-se na construção da capela do Campo Redondo, outros lugares também foram agraciados com sua visita e com a construção de capelas.
     Outro local (Cruzeiro) de encontro para orações, “Cruz do Monte”, (Bom Despacho) foi também local de encontro dos primeiros Padres e catequisadores da época que vieram à região, e posteriormente, o Padre Libério, o Padre Júlio Maria, e os primeiros vicentinos que aqui vieram e estabeleceram residência nas proximidades, reuniram-se em oração em torno do belo cruzeiro que está pedindo socorro por reforma.

 
20 de março de 2006, às 08h.
 
     Em tempo: na oportunidade, reuniram-se na Capela, próxima ao grande Cruzeiro do Monte, o Padre José Raimundo da Costa, Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, Tânia Nakamura, Secretária da Cultura do município, Felipe Cunha e outros, para tratar do projeto de reforma do “Cruzeiro de Santo Antônio do Monte”, conforme era conhecido o local. Atualmente, conhecido por Cruz do Monte, rico de histórias regionais, inclusive, Dom Belchior Joaquim da Silva Neto e Dom Waldemar Chaves de Araújo (Bom-Despachense, Bispo Emérito de São João del-Rei/MG), quando passaram pela Diocese de Luz, foram extremamente cuidadosos com a história da cidade de Bom Despacho/MG e região, envolvendo cruzeiros, construções de igrejas, capelas e fontes catequisadoras, ambos, por excelência, foram grandes admiradores de Padre Libério Rodrigues Moreira. Na ocasião em que Dom Waldemar passou por Luz/MG, era Monsenhor Waldemar.
 
22 de fevereiro de 2013, às 15h.
 
Cruzeiro do Monte da Cidade de Pitangui/MG




Cruzeiro do Monte da Cidade de Bom Despacho/MG
João Batista Silva
Enviado por João Batista Silva em 28/09/2018
Alterado em 28/09/2018
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